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Olhares Cruzados Nº 3
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 Olhares Cruzados Nº 3 

 

Falar português no BAD

Por Leonor Fontoura, economista estagiária no BAD na 8ª edição do InovContacto: Fevereiro de 2005. Com a chegada do BAD, Tunes sofreu uma enorme transformação sentida quer por tunisinos, quer por estrangeiros. A economia dinamizou-se. Uma estrutura de milhares de pessoas deslocalizou-se de Abidjan para Tunes duma só vez, arrastando inúmeras famílias expatriadas com grande poder de compra, exigindo mais infra-estruturas de apoio, maior diversidade na oferta, criando emprego e mudando o panorama económico e social. Colocando Tunes no “centro” de África e África mais perto da Europa.

A cidade foi forçada a adaptar-se a dezenas de nacionalidades diferentes, aos seus gostos e hábitos, de forma a recebê-los e a absorver o seu poder de compra. O mercado imobiliário disparou, os restaurantes à volta do Banco foram germinando; o café da esquina (sombrio e permanentemente envolto numa nuvem de fumo de tabaco) triplicou a actividade, mantendo o expresso a 30 cêntimos; o dono da mercearia em frente do banco, senhor velhinho, com a sua boina e ar simpático atrás do balcão que me ensinava árabe, nunca deve ter tido tanto trabalho e rotatividade de “stock”!

Diz-se que os preços aumentaram com a chegada do Banco. Os hábitos de consumo adaptaram-se. Apareceu um Carrefour, único na Tunísia, delícia de “expats” e de tunisinos, fotocópia de todos os outros, mas onde o corredor das bebidas alcoólicas se encontrava fechado e vigiado por um segurança. Os contrastes acentuaram-se. Só o Banco não se adaptou.

Para mim, foi espantoso descobrir como todas as diferenças saltavam à vista, mas conviviam num caos ordenado, pacificamente. Como fazia sentido existirem em simultâneo. Ao fim dum tempo, sair do Carrefour, entrar num dos táxis amarelos (com janelas seguras por alicates e cuja luz só liga juntando dois fusíveis descarnados) e chegar a casa ao som da oração da noite cantada pelo “muezin” do alto do minarete (’Alah U Akbhar’) eram coisas igualmente familiares.

Também fui forçada a adaptar-me à dinâmica do Banco. A minha primeira missão oficial enquanto “petite stagiaire” chegou durante uma das primeiras reuniões de departamento, no fim de Janeiro: acompanhar e apoiar o Country Economist de Angola (tunisino) e a Country Team na preparação da missão a Luanda junto de diversas autoridades locais para elaborar o Documento de Estratégia País 2005-09.

Um desafio inesperado! Acompanhar um dos países mais ricos de África, dos mais complexos em termos de desenvolvimento socioeconómico, onde o domínio da língua portuguesa assume uma importância crítica, o que me daria uma clara vantagem comparativa. A minha oportunidade!

Dois problemas se punham. A expectativa do departamento de que eu trabalhasse em francês. ‘De facto, o francês e o inglês são as duas línguas oficiais do BAD. Mas sempre se partiu do princípio que se podia trabalhar com qualquer uma’ – evidentemente, um principio exclusivamente meu – ‘On est un département francophone, on travail en français et je vous conseils de commencer à le faire au plus vite !’.

Começava aqui a minha iniciação à Teoria dos Jogos Badiana. Se, por um lado, tinha uma missão aliciante onde falar português era a minha grande mais valia e necessidade do departamento, por outro lado estava limitada à partida pela exigência do francês. O segundo problema era a máquina burocrática interna aliada à minha falta de peso para a fazer girar.

Para tudo (ter um telefone no escritório, marcar uma viagem, ou pedir autorização para partir em missão), era preciso escrever um memo, fazê-lo circular pelo departamento para assinatura antes de o enviar ao VP para validação. Sem estatuto ou redes de influência, poderia levar semanas; era remar contra a corrente. Com o tempo, aprendi a contornar este processo e a conhecer as pessoas certas nos sítios certos.

Importante era conseguir ir em missão para Luanda em Março.

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