Expresso, Caderno de EconomiaCinco supergestores cuja carreira internacional os projecta como exemplo do talento em «management». Quatro estão em multinacionais (nenhuma portuguesa) e um é banqueiro.
Andam na faixa dos 35 aos 50 anos e são o expoente da geração de gestores portugueses expatriados que desenvolveram carreiras em multinacionais.
A maioria revela uma grande fidelidade à empresa, com uma vida prolongada em diversos postos, até que saltaram para responsabilidades de topo na hierarquia internacional.
Os «lounge» dos aeroportos e os quartos de hotel são o pão de cada dia, com rotas que implicam 50 a 150 viagens por ano. As suas bases logísticas, onde têm mulher e filhos, estendem-se por uma geografia que vai de costa-a-costa nos Estados Unidos, até ao Reino Unido e à vizinha Espanha, nos casos que seleccionámos como a nata dos nossos gestores lá fora.
No entanto, sempre arranjam tempo para os seus hóbis predilectos - desde as corridas de alta velocidade, ao ténis e golfe, às caminhadas (saudáveis) na Escócia ou ao coleccionismo de carros clássicos.
Os trajectos pessoais dos cinco casos revelam a geometria variável típica destas carreiras - Hélder Antunes iniciou-se no empreendedorismo de base tecnológica no coração do Silicon Valley e a meio do caminho aceitou ingressar na Cisco; Paulo Pereira saiu com um MBA fresco do Insead para a Morgan Stanley em Londres e, ao fim de quase vinte anos, criou com outros «partners» um banco de investimento; Viana Baptista iniciou carreira em Portugal e aceitou há oito anos o desafio de uma carreira internacional na maior operadora global de telecomunicações da Europa, a Telefónica, em Madrid; finalmente, Armando Zagalo de Lima e José Duarte quase pertencem à ‘mobília’ das multinacionais onde trabalham, com 19 e 13 anos de casa respectivamente na Xerox norte-americana e na SAP alemã.
O leitor pode visitar, nestas páginas, estas cinco histórias, contadas na primeira pessoa, à excepção de António Viana Baptista, que optou por não responder ao nosso inquérito, o que claro não impediu que figurasse neste pódio.
O paradoxo português
Para estes gestores, a imagem de Portugal, com a distância, assume um quadro paradoxal: a saudade dos pequenos detalhes do país de berço está sempre presente, mas o olhar é mais exigente.
A síntese é invariavelmente crítica: “Portugal estagnou”, “O país marca passo”, “As pessoas estão sempre à espera do Governo”, “Há uma percepção de subdesenvolvimento dado a maioria operar em actividades consideradas de segundo nível”, “O tempo das facilidades acabou e parece que ainda não se deram conta”.
José Duarte observa mesmo um ‘fosso’: “Estamos parados no mesmo ponto onde nos encontrávamos há dez anos, com a grande diferença que o mundo progrediu de forma impressionante - e Portugal estagnou”. Paulo Pereira faz uma análise histórica similar: “Portugal melhorou na primeira década que estive fora e tem piorado na segunda”. Lá fora, a imagem que ouvem na ‘rua’ é de um país bom para férias e com óptima gastronomia... e com alguns excelentes jogadores de futebol e treinadores famosos. Falta «marketing» e projecção internacional para mostrar a outra face moderna de Portugal.
Mas estes supergestores sabem que dispomos de uma «pool» de talento, que, quando testada, internacionalmente, revela ser da melhor qualidade.
Hélder Antunes, da Cisco, crê que esse facto poderá ser a alavanca para poder vir a instalar um centro de desenvolvimento da multinacional em terra lusa, como já o fizeram outras companhias internacionais (Siemens ou Microsoft, por exemplo). Foi um dos entusiastas do programa ‘Contacto’ do ICEP, que lhe revelou “uma juventude de estagiários de altíssima qualidade - são mesmo muito bons e neste ambiente do Silicon Valley adaptam-se e tornam-se muito competitivos”. Por isso, continua a batalhar para criar, dentro da Cisco, um lóbi a favor de Portugal. “Queremos continuar a trazer o máximo de estagiários para São José, para demonstrarmos o seu valor, e podermos criar massa crítica para abrir, depois, um centro em Portugal”, conclui.
O banqueiro Paulo Pereira, por seu lado, é peremptório: “Algumas das empresas do sector privado com quem tenho trabalhado são tão dinâmicas e competitivas como qualquer outra empresa estrangeira no mesmo sector e têm excelentes equipas de gestão”. O problema, diz ele, é o que se passa no resto: “Noutras empresas, sobretudo naquelas que estão relativamente protegidas da concorrência, vejo um permanente jogo de grupos de interesse, quase feudal, muito conformismo e tolerância pela mediocridade”.
Armando Zagalo de Lima, da Xerox, partilha, por seu lado, a mesma opinião positiva sobre a parte dinâmica do tecido económico: “As empresas portuguesas são normalmente bem geridas e acessíveis comercialmente”. João Duarte da SAP, concorda, mas encontra um senão: “O grande «handicap» da maioria das empresas portuguesas é que são exclusivamente portuguesas”. Falta-lhes mais ‘globalização’.
Três deles tiveram uma escola de gestão em comum - o Insead, onde Viana Baptista, Paulo Pereira e José Duarte tiraram MBA. Mas não revelam muito os seus gurus de «management» preferidos. Nalguns casos respondem que “há vários candidatos” ou então referem os CEO das suas próprias empresas. Dois deles, no entanto, contam o segredo: Hélder Antunes, da Cisco, considera Carlos Goshn, o líder do grupo Renault, a sua referência de gestão, e Zagalo de Lima, da Xerox, confessa que tem o chefe da Porsche como a personagem que mais admira no mundo do «management».
O chefe para a América Latina
JOSÉ DUARTE
A nomeação de José Duarte para o cargo de director-geral da SAP para a América Latina não aconteceu por acaso. Foi mais um passo na trajectória ascendente deste executivo na multinacional alemã de «software». O último trampolim foi o bom desempenho na função anterior, como Regional Managing Director para Espanha, França, Itália, Portugal e Norte de África, em que levou a cabo a reestruturação da operação francesa, tendo conseguido pô-la funcionar com um novo líder, uma nova equipa e a gerar receitas em linha com os objectivos.
Cumprida esta missão, Léo Apotheker, Presidente das Operações Globais da SAP, entendeu que estava na hora de José Duarte assumir o desafio de liderar uma das regiões com maior potencial de crescimento. “A minha motivação foi significativa, pois procurava a oportunidade de trabalhar fora da Europa como meio para alargar as minhas competências. Foi uma excelente combinação num bom momento”, diz José Duarte.
Sediado em Miami, que diz com ironia ser “a única cidade da América Latina que não requer passaporte para que nos movimentemos nos EUA”, estranhou no início (Janeiro de 2006) “este mundo totalmente latino, desordenado, caótico, criativo e com bastante alegria”.
Desde Julho passou a ser mais fácil viver nesta cidade da Florida porque alugou uma casa em Coral Glabes e passou a ter a companhia da família (mulher e três filhas). Um conforto afectivo relativo, porque José Duarte passa uma parte substancial do seu tempo a viajar pelos países que tem a seu cargo.
O superperito rei do Mustang
HÉLDER ANTUNES
Arrependeu-se de não ter aceite dois anos antes o primeiro convite da Cisco, mas, na altura, o ‘bichinho’ do ambiente empreendedor das «start-ups» de Silicon Valley falou mais alto. “Fui parvo, se tivesse entrado, na altura tinha feito uma fortuna em acções”, ri-se Hélder Antunes, que desde que tirou um curso em ciências da computação passou por algumas das pioneiras californianas, como a Grid Systems, a Plus Development ou a Netmanage.
À segunda vez, em 1998, já não recusou, o que lhe abriu uma carreira de especialista internacional em segurança de sistemas. “Sempre tive fascínio pelas questões de segurança na tecnologia. Comecei com seis pessoas na minha equipa e agora tenho mais de 60 directamente e colaboramos com 300 no quadro da unidade de negócio da Cisco”, diz o director de engenharia da Cisco para a área.
Confessa que no seu dia-a-dia se inspira em Carlos Goshn, o presidente mundial da Renault (que deu a volta à japonesa Nissan), “uma pessoa incrível de que tenho lido imenso”. “Quanto mais conheço sobre ele, mais o aprecio, reforça. Apesar das dezenas de viagens que faz por ano, vem quatro a cinco vezes a Portugal e no Verão não dispensa umas férias com a mulher e três filhos nos Açores. Mas encontra, sempre, fins-de-semana para a sua paixão: as corridas nas «speedway» na Califórnia e Nevada. Foi recordista mundial com um Mustang e é instrutor de alta competição da Associação norte-americana de carros de desporto. Vai correr em Outubro na série da American Le Mans.
O especialista da City em fusões
PAULO PEREIRA
Se tivesse que dar um nome ao actual ciclo da economia mundial chamar-lhe-ia ‘encruzilhada’. “Vivemos uma época cheia de desequilíbrios e desigualdades. E existe a possibilidade de, quer por choques geopolíticos quer por efeito de possível excesso de liquidez, se entrar num ciclo ainda mais difícil”.
Apesar do fatalismo da frase, Paulo Pereira não é um pessimista. Nisso, aliás, é muito pouco português. Na sua opinião, não devemos ter complexos de inferioridade. Ser pequeno “é uma condicionante, não é uma fatalidade!”.
E não há como o negócio das fusões e aquisições, a sua área de especialização, para ter esta realidade sempre presente. Nesta matéria, a menina dos olhos de Paulo Pereira foi a compra da Mannesmann pela Vodafone. Uma operação hostil em que defendeu os alemães, que, apesar de ‘engolidos’, ficaram com quase metade da nova empresa.
A propósito do movimento de fusões e aquisições e do processo de liberalização que está a levar a ajustamentos do tecido empresarial e financeiro, Paulo Pereira lembra que o mais importante são os centros de decisão: “Não interessa só de quem é a propriedade. Ter o monopólio não basta, se são os outros a ganhar com isso”. E avisa que “não chega impor regras, é preciso criar condições de médio prazo. Pensar no curto prazo é sempre mau conselho”.
E foi também a pensar no médio prazo que aceitou trocar a Morgan Stanley pelo novo banco de investimentos, o Perella Weinberg & Partners, de que é um dos quinze sócios.
A grande promessa da Telefónica
ANTÓNIO VIANA BAPTISTA
Discreto acima de tudo, e com fama de ‘duro’, António Viana Baptista é o homem-forte das comunicações espanholas. O gestor responde apenas perante o poderoso César Alierta, que em Junho escolheu o português para assumir o controlo das operações fixas e móveis da Telefónica no mercado interno. É ele o responsável por mais de metade da facturação do gigante espanhol (a maior operadora global de telecomunicações da Europa), ou seja, pelas suas mãos passam anualmente cerca de 20 mil milhões de euros.
Casado e pai de três filhos, preserva com cuidado a sua vida privada e não dá entrevistas com facilidade. Recentemente, o «El País» classificou-o como «uma das grandes promessas da Telefónica», capaz de injectar «seiva nova, com mais agressividade» na operadora.
Viana Baptista começou a sua vida profissional na área da consultadoria estratégica, tendo sido «principal partner» da McKinsey em Lisboa e em Madrid. Entre 1991 e 1996 foi administrador do BPI. Em 1998 rumou a Madrid.
Chegou à Telefónica pela mão do polémico Juan Vilallonga, o que não o impediu de se transformar numa peça determinante da gestão Alierta. A recente reorganização do grupo foi considerada uma promoção mas, como contrapartida, Viana Baptista, antes presidente da Telefónica Móviles, deixou de ser responsável pela brasileira Vivo, embora tenha mantido o lugar de administrador não-executivo da Portugal Telecom. Tem sido apontado como potencial candidato à presidência da PT.
O homem-forte da Europa
ARMANDO ZAGALO DE LIMA
Armando Zagalo de Lima é o expoente máximo da fábrica de talentos em que a Xerox Portuguesa se transformou nos últimos anos. Em grande parte graças à visão e à escola deixada pelo mítico Nuno Melícias Correia que nos anos 1990 ocupou o cargo de director-geral da empresa. Com a ascensão vedada em Portugal dentro da companhia, Zagalo de Lima aceitou desafios no estrangeiro em cargos directivos, nomeadamente na Bélgica e como responsável pela Europa do Sul. Até que em Janeiro de 2004 foi convidado por actuais funções de Presidente da Xerox Europa, respondendo a um convite de Anne Mulcahy, a CEO a quem é atribuído o mérito de ter salvo a multinacional americana da falência. Zagalo de Lima soube interpretar e aplicar no Velho Continente a estratégia da CEO que passou por transformar a Xerox numa fornecedora de serviços e «outsourcing».
“A primeira decisão que tomei foi convidar a minha equipa de gestão para um jantar com os respectivos «partners»”, revela o gestor. Um acto de simpatia que não tem excluído a necessidade de tomar decisões menos agradáveis num contexto de mudança quando “se tratou de reestruturar a empresa”.
Hoje é normal encontrar este engenheiro electrotécnico nascido em Lisboa presente em grandes eventos internacionais como orador ou a ser entrevistado pelos media dos grandes países europeus. Aliás, sempre que inicia um discurso faz questão de revelar a sua nacionalidade. Por manifesta falta de tempo abandonou o golfe e regressou ao ténis.